É das arestas que te olho

 

na vida roncante
de homem-roça-gutural
de um homem-ronco
que não dorme
o afeto era nas arestas
um abraço ali
um “cata caroço aqui”

e eu dizia pequena e fula
não tem caroço nenhum aqui!
e ele se ria todo roncante

a pele escura como a minha
um afago de todos os dias
era uma arvorezinha
na genealogia florestal

mas um dia tropeçamos e primeiro disseram que ele disse
– ela está distante
porque ele nunca diz direto ao destinatário

e procurei em suas costas
caroços que não existem
pra pode ter ver feliz
dando tapas na barriga

outro dia você disse
– Diz pra ela que me fez passar vergonha

– Você não é tudo o que eu – é o que eu diria

e se eu nunca te idealizei?
nunca esperei mais do que
os adjetivos que eu nunca soube dar
fica escrito que te olho
que te olho como a uma arvore formosa
crescida sem água e sem terra macia
fica escrito que sei da tua casca grossa,
inevitável em terras castigantes,
e sei também do teu silêncio
que as vezes encontro em meu RNA (ou DNA)
e se é daqui
de um pouco mais longe que te olho
e dificulto em adjetivar
é porque hoje eu coloquei o pé
o cabelo
e a sexualidade
pra fora da tua sombra

 
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Lembrete diário pra quem tem saudade

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Quando entrei pela porta de casa, minhas pernas quiseram imediatamente tornar às ruas para deixar imaculada a atmosfera que, por alguns dias, as nossas vozes juntas construíram. A cama afastada pra caber tua mala, teus vestidos nos cabides meus, nossas maquiagens misturadas numa fusão de purpurina carnavalesca, e até mesmo teus anéis que hora ou outra se perdiam pela casa. Se eu entrasse, onde estariam?

Enquanto eu retornava de sua partida, para facilitar ou dificultar a caminhada, repetia cada mar, cada sol, cada manhã de sorrisos doces, cada mar, cada sol, cada manhã de sorrisos doces, pra ver se na repetição de sua rostidade a memória abriria a exceção de não falhar.

Naquele flanar, o bairro do Flamengo todo me via aturdida, os olhos correndo os ladrilhos sem ver. A abstinência de tua mão na minha suplantada por bochechas salgadas. Mas não era infelicidade, longe disso. O Flamengo, se não for bobo, deve ter visto bochechas molhadas, mas vez ou outra repuxadas, pra dar espaço a um sorriso que é teu.

 
Criada a coragem necessária, entrei. Segurei a respiração como se de algo adiantasse. Os gatos se aninharam perto, como se sentissem a minha mesma estranheza de não você. É engraçado o medo que o corpo causa quanto sente falta. Tive que respirar. Tive, ainda, que me mover. E me movendo tive, também, que rir da minha tolice. Era facilmente você, ou partes de você, nas peças de roupas esquecidas na varanda e na cadeira, no presente peludo que agora dormirá ao meu lado, nos instantes congelados por maquinas fotográficas.

 
Mas te vi, principalmente, no onde quer que eu vá, pelo durar do verbo querer, pela flexibilidade do que chamam longe, pelo durante que o tempo permitir.

 
E no armário que agora não abriga seus vestidos, achei um bilhete teu, que para além das palavras todas, trazia um rabisco rápido, nosso, uma imagem que gritava:

Cada mar, cada sol, cada manhã de sorrisos doces.

O tempo é um senhor medroso

 

penso que quando sobe
um gato no telhado
a lua se vira pra ser vista
prata

 

enquanto aqui na rua
tropeço no meio fio
e por um fio o órgão cai

 

pra que ninguém veja,
nem mesmo a lua
as encruzilhadas
coloca o órgão debaixo do braço
não esquecer de tapar as suturas

 

pois quando alguém dobra
aquela esquina
a pressão do tempo cai
.
.
.
.
.

Um pouco zonzo, o tempo caminha
Olha pro mar, admira as conchinhas
Pede pras ondas bater no seu peito
e acompanhar o seu, rarefeito:

 

Leve daqui esse medo de amar
Amo meu povo como tu a teu mar
Preciso andar, que precisam de mim
Por que sofrem tanto, ainda que eu diga sim?

 

 

Tardes Triviais

Um dia ela escutou que a solidão era só mais um carinho malvado do grande amor, tudo já elaborado pra gente sentir saudade. E sentiu vontade de chover e de contornar as traças e desentupir as calhas do peito, da casa, do pulmão, com todo aquele amor que tinha e cair no jardim, ir descendo fundo no solo úmido até que os girassóis, que ela cuidava todo santo dia, sentissem um pouco de saudade. Sentir a terra como parte de seu próprio corpo como sentia quando era uma menina branca, pobre e com o cabelo fora de moda. As modas que escutava do pai preenchendo-a de esperança e de desejo; daquelas cordas de violão suadas, surradas, atrasadas, ela se sentia dona dos segredos do horizonte. A iluminação tão parca criava um espectro bonito de estrelas cheias de mistérios e maldições, a mãe ríspida dizendo que não deviam olhar, que não deviam apontar, mas ora essas meninas! E ela que tola não era, olhava tudo ao redor e tudo sentia. Talvez fosse a puberdade chegando, talvez fosse porque olhava demais as estrelas e tivesse sido amaldiçoada, ou quiçá um possível castigo divino por desafinar não só uma vez as cordas do pai, mas ela crescia em suspiros.

Suspirava, e a dor que sentia era a dor dos conscientes da desgraça. Frequentava uma escola barulhenta, engolia uma sopa salobra e então começava a lavar as roupas de D. Maria e, deus me livre se chover. Era ela quem cuidava das irmãs pequenas e ignorantes; quem contava com a ausência do pai, devoto de baralhos e bebidas; e era ela quem devia lidar com o desencanto mórbido da mãe distante, enfiada numa cidade grande a cuidar do filho doente. Ainda que esquecida em um bairro esquecido de terras distantes ao norte, ela imperava entre os seus com a firmeza e doçura de meninas que se desvendam e crescem só. Tocava sorrisos, cortava cabelos, dava sermões e tirava piolhos de quem precisasse ali.

Um dia desejou morrer, e era só uma dor dente. Mas só quem já teve dor de dente como as dores de antigamente sabe o que é sentir-se um grande coração latejante, com a sístole bem no meio da gengiva, o átrio-ventricular desesperado, toda aquela dor sanguínea se espalhando pelo pescoço, pelos braços, mais a febre, mais o frio.  Foi nessa época que ela quis escrever “Ser coração dói, de todas as formas possíveis”, mas a agonia era grande e ela não alcançou o caderno de acordes a tempo: esqueceu-se. O pai não sabia o que fazer quando ouviu, no murmurante posto de saúde, que o único dentista da cidade foi de férias. A pequena transformava-se, aos poucos, em um coração puído e amarelo, dolorosamente palpitante. Podia-se ter passado dias ou meses até que apeasse, bronzeado, o dentista, dizendo: “danou-se, só resta rancar”.

Como aquelas piores dores, as dores mais necessárias para que permaneçamos vivos, soaram as palavras daquele ser vestido de branco. E eram como agulhas lá atrás na gengiva.

Ela voltou pra casa e já não se sentia mais a menina de antes, menos por não ter a metade dos dentes de outrora do que por continuar acompanhada da dor ou da lembrança da dor. O pai, italiano e desesperado por natureza, fez o que aprendeu com os índios que da região e deu-lhe fumo em papel para, dizia, apaziguar as perturbações do corpo e da alma.

E hoje ela sente que a partir daqueles dias começou a crescer, principalmente ao perceber que era preciso se portar com fugazes ímpetos de vida em cada circunstância. Assim terminou a escola, a graduação, a pós-graduação, e começou a trabalhar. E tudo isso, banguela. Banguela na alma, lá atrás. Banguela como vinha sendo desde aqueles dias, dos quais o fumo se espalhou pelo resto deles.

Não se lembra exatamente quando, mas trabalhou duro e parou de ser banguela; casou-se com um pedreiro-guarda-estudante-babá dos irmãos como ela uma vez fora, e estava certa da combinação precisa do gênio ambicioso e amalucado dos dois.

Naquele fim de tarde de maio, a mulher que ela se tornou parou para pensar que ela era chuva e que era terra de girassóis. Estava na puberdade de novo, a sentir tudo ao seu redor. Era assim que sempre acontecia quando tentava parar de fumar. Ficava contraída e sensível. Nunca por dependência física, mas por escavações na memória do coração banguela da moça, que começava a se lembrar do dentista bronzeado, da fome, da dor, da falta de tudo, e se insistisse em um projeto saudável de vida, adoecia-se na alma. Em todas as vezes que tentara, vidas passadas e inomináveis voltavam, jorrando, num baque surdo e violento de cachoeira. Haveria choro e cigarro trêmulo, ressentido, aliviado.

Ela sorria em meio a tudo isso, que era como um tumor que guardava daquela época, por certo incurável. E embora ela ache toda essa história uma baboseira (trivial ela realmente é), e embora nunca vá parar de tentar, como sempre persistiu e lutou para viver, ela correu e, ciente de sua total falta de dom para a literatura, escreveu: “Cada qual com seu coração”.

A estória de Seu Antônio

 

hoje segurei
um velho
pra que não caísse
ele agradeceu sem medo, olhou
pras próprias pernas
e gritou pois era surdo:
menina!
foi num buraco
em que escavava tomando água
que sucuri veio até mim
e primeiro de qu’eu cortasse
o diabo em dois
ela me doiscoisou
em um velho que anda léguas
e um velho que cai nos ôto
sem nem estrubicar em cupim de capim
pra mim foi claro, veja bem
a maior vergonha é o desrespeito
de quem salva quem não quer salvação
naquele início de lua eu me arrastei
pra pista do aeroporto em que escavava
onde tudo era só mato
deitei na pista pra morrer
de uma só vez com o avião
que pousava único e eu me lembro
que pensava abestaiado, ali
seria uma morte
de bom status,
não num buraco
abraçado
em beijo de sucuri.

 

 

 

 

 

Seu Antônio foi comprar leite na casa de meu pai, e eu o atendi. Não sei da veracidade da história que (realmente) me contou, mas fiquei sorrindo enquanto ele saía resmungando. Nunca mais o vi. Também não sei seu nome.

Para Judith

 

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em meu teto, todo meu
respirei
pois é onde posso ser
um marulhoso mar
viscoso amor
mas não sei quando te perdi
nem Ana Cristina Cesar

 

(agora eu preciso cuspir)

 

olho pela janela e ela
me conta quantas delas
passaram por ali

 

Com pedras no bolso do rio Ouse
com frascos e cordas e saltos
o ano é o de 2014

 

ao fim do dia,
Shakespeare ainda cultiva
algumas, milhares de irmãs.

 

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Em “Um teto todo seu”, Virgínia Woolf escreve que se Shakespeare, por acaso, houvesse tido uma irmã tão talentosa quanto ele, ela, inevitavelmente, teria por fim o suicídio. Após tentativas (censuradas) de desenvolver suas aptidões e de recusas consecutivas de reconhecimento artístico, Judith carregaria nas costas uma frustração até que não aguentasse mais.

 

Em 1941, Virgínia encheu seu casaco do pedras e se jogou no azul.

 

1930, Florbela Espanca.

1963, Sylvia Plath.

1974, Anne Sexton.

1983, Ana Cristina Cesar.

1972, Alejandra Pizarnik.

1900, Antonieta Rivas Mercado.

 

Judith, Judith, Judith.

 

 

7 haikais, sem métrica, para ela utilizando referências e roubos literários

 

Não escreva poemas de amor
quem me disse
foi Rainer Maria Rilke

 

 

 

teve um outro
que ainda disse
cartas de amor são ridículas

 

 

 

duas lâmpadas 45 watts
ontem mesmo decidi comprar
pra ver seus olhos onde eles têm que estar

 

 

 

sentei pra brincar com seu nome
mas “aura” me lembra poemas parnasianos
e eu caguei pra forma

 

 

 

mas se seus olhos olham os meus
construo 30 museus
pra caber teu filme de muitos takes

 

 

 

e se seus dedos tocam os meus
eles tampam os olhos de rilke que há muito morreu
Pra poder vir relatar

 

 

 

Que se não fosse isso não seria nada
se não fossem borboletas seriam qualquer coisa com asas
porque é você, porque é eu.